O escritor António Lobo Antunes, considerado um dos mais importantes autores da literatura portuguesa contemporânea, morreu hoje, dia 5 de março de 2026, aos 83 anos.
Nascido em Lisboa, em 1942, Lobo Antunes licenciou-se em Medicina e cumpriu o serviço militar como oficial médico em Angola, entre 1971 e 1973, experiência que o marcou definitivamente.
Mais tarde especializou-se em psiquiatria, profissão que exerceu durante alguns anos antes de se dedicar plenamente à escrita. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas. O seu primeiro livro, “Memória de Elefante”, surgiu em 1979, logo seguido de “Os Cus de Judas”, no mesmo ano, sucedendo-se “Conhecimento do Inferno”, em 1980, e “Explicação dos Pássaros”, em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
Ao longo da carreira publicou 35 romances e numerosas crónicas, reunidas em seis volumes, afirmando-se como um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos.
Lobo Antunes deixa uma obra vasta, marcada por mais de quatro décadas de escrita intensa, profundamente influenciada pela experiência como médico militar em Angola durante a Guerra Colonial.
Em 2007, António Lobo Antunes foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante galardão literário em língua portuguesa. A sua obra foi distinguida com vários prémios nacionais e internacionais, bem como com algumas das mais altas condecorações. A República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.
“O gigante das letras portuguesas” na imprensa internacional
O retrato feito pela imprensa internacional à morte do escritor português António Lobo Antunes segue, de alguma maneira, a geografia da fortuna crítica do autor. Os obituários mais completos e os primeiros elogios chegaram de Espanha e França, seguidos, de perto, por Alemanha e Itália, mais tarde, pelo Brasil, dada a maior diferença horária.
O jornal espanhol “El País” recorda “um legado de mais de três dezenas de romances”, que o firmou como “gigante das letras portuguesas”. “Tudo na biografia de António Lobo Antunes foi monumental, ciclópico, colossal. O mesmo se pode dizer da sua morte”, escreve a jornalista Tereixa Constenla do “El País”.
O jornal “El Mundo” noticia a morte do “último guerrilheiro da literatura portuguesa”. “Era a única carta que restava no baralho dos grandes escritores portugueses do último meio século“, escreve o colunista Antonio Lucas. Para o colunista do “El Mundo”, António Lobo Antunes caracteriza-se pela “demanda literária de uma voz própria e [por] uma experiência clínica, por vezes angustiante”, que lhe “conferiram uma identidade singular e, mais tarde, um lugar entre os candidatos portugueses ao Prémio Nobel, até Saramago ganhar o prémio”, o que, acrescenta, o afastou “definitivamente da corrida”.
“Não quero saber do Nobel. Os prémios não melhoram os livros”.
António Lobo Antunes (2019)
“El Mundo” recorda ainda a crónica “Adeus” (2012) de António Lobo Antunes, na qual confessou: “A minha obra está praticamente terminada. Escrevi os livros que queria, da forma que queria e dizendo o que queria: não vou mexer numa única linha do que escrevi, e mesmo que me dessem mais cem anos de vida, mesmo assim não mexeria. Era isso mesmo que ambicionava fazer”.
PARA SABER MAIS “António Lobo Antunes, la memoria fermentada”
(Jot Down, 2021/02)






